Em Mil Vidas: Jogador Mizush Norogami

Uma entrevista conduzida pela Oráculo dos Destinos
“Em meio às aventuras e escolhas, descobri que viver mil vidas é tão simples quanto escrever a próxima vida.”


Ele chegou em silêncio — como quem observa primeiro, senta depois, e só então fala.

Chamam-no de Mizush Norogami. Mas quem escuta com atenção ouve algo além: há em Simon — o homem por trás do nick — o eco de um andarilho que passou por reinos, ruínas e glórias. Um jogador que carrega no traço nômade não apenas uma escolha de personagem, mas uma filosofia de jogo e de vida.

Hoje, é também administrador no RPG Black Clover, ao lado de Yan — e nesse universo, entre magias e rivalidades, continua a deixar sua marca não apenas como player, mas como um dos pilares que sustentam a narrativa de um mundo inteiro.

Com 25 anos e 16 deles vividos entre turnos, missões e partidas, Mizush é um relicário de experiências. Já administrou RPGs, criou sistemas, venceu torneios e também sofreu perdas — e foi por entre esses fragmentos que sua voz ecoou nesta entrevista.

Não para se mostrar. Mas para registrar.
Não para ensinar. Mas para partilhar.

Ouvimos de tudo: suas memórias, suas dores, sua visão crítica e seu amor incansável pela arte de narrar vidas que não são suas — mas que revelam, sempre, algo de si.

Com vocês, a travessia completa.

✦ Quem é Mizush?

Na penumbra silenciosa dos começos, onde os nomes ainda não têm rosto e as palavras são sementes de mundos por nascer, surge Mizush Norogami — ou simplesmente Simon, como atende em sua pele mais terrena. A conversa flui como quem observa um rio em seus primeiros passos: tímido, mas destinado a desaguar em oceanos criativos.

“Sou uma pessoa dinâmica”, ele começa, como quem se define de modo direto, mas logo se revela em detalhes mais sutis — nas notas graves do rock e nas batidas vibrantes dos raps de animes, sons que lhe sopram ideias, cenas e construções que, mais tarde, germinam em batalhas ou momentos casuais.

Hoje, Simon é presença constante nos cenários que habita. Atuante, sensível à função de jogador e de apoio, ele se move em cada RPG com a leveza de quem entende seu papel no fluxo coletivo. Mas, para compreender o presente, é preciso escavar as raízes.

“Conheci o RPG textual na época do Orkut”, diz, evocando um tempo em que as plataformas eram rústicas e os sistemas improvisados. Foi pelas mãos de um colega de escola — Roberto — que teve o primeiro contato com aquela delicada alquimia de palavras e imaginação. E, desde então, nunca mais largou. “Fiquei agraciado com a delicadeza e maravilha que é o RPG textual.”

Seu primeiro grupo? Simon hesita, mas relembra dois ao mesmo tempo. Um, baseado em Naruto, no formato de RPG de cartas — ambientado em uma era anterior ao nascimento de Hashirama, reescrevendo o destino do clã e do mundo shinobi. O outro, medieval e elemental, centrado nos filhos de deuses primordiais, manipuladores de cineses: água, fogo, ar, luz, escuridão... Um verdadeiro panteão de narrativas.

Entre os dois, o Naruto venceu seu coração. “Sou apaixonado pelo anime desde a infância”, confessa. Seu personagem ali — um homem de um clã extinto, o Mashiba — era toda força, marca e tragédia, carregando em seu corpo musculoso uma insígnia que lembrava a marca da maldição.

Já no RPG medieval, as memórias são turvas. “Não tenho uma memória muito boa de qual era meu personagem.” Ainda assim, a experiência o tocou. Era o prenúncio de um amor duradouro pelas mitologias originais.

Simon começou cedo — aos nove anos. São, então, dezesseis anos de estradas narrativas. De Naruto a Bleach, de deuses a universos originais, ele cruzou gêneros, mundos e propostas. “Já joguei três RPGs de Naruto de Card, mas depois me apaixonei mais ainda pelos textuais.”

No tocante a estilos, Mizush caminha no meio-fio entre adaptações e criações originais. Não se apega a extremos. E, apesar de reconhecer a qualidade dos sistemas baseados na vida real, admite: “Usar aparências de real life não me é muito bom em comparação aos 2D.”

Versátil, Simon sabe aproveitar o melhor dos dois mundos. Ele valoriza boas recepções, sistemas compreensíveis, tramas com substância. Histórias que o fazem vibrar — ou sangrar.

E é apenas o começo.

Entre Deuses e Demônios

Toda alma que se aventura nos reinos do RPG acaba encontrando um reflexo de si nos personagens que cria. Alguns são escudos. Outros, espelhos. Há ainda aqueles que se tornam feridas abertas, sangrando histórias que parecem maiores que o próprio mundo. Com Mizush, foi assim — um criador de almas marcadas, moldadas por amor e dor em igual medida.

“Tenho três personagens que são meu coração”, revela. E, ao nomeá-los, um véu de reverência parece pairar no ar. Broly, Lúcifer e Mizush.

Broly, inspirado na versão do filme da franquia Dragon Ball, nasceu de uma base já conhecida, mas se transformou em algo que transcendeu a fonte. “Reescrevi a história dele e hoje o moldo como um Sayajin que viajou pelos multiversos em busca de alguém que pudesse, enfim, derrotá-lo.”

Não é apenas um personagem. Broly é uma metáfora viva da solidão e da busca — da necessidade quase trágica de ser compreendido, mesmo que pela dor de um oponente à altura. Simon carrega esse personagem no peito, como quem cultiva uma dor preciosa.

"Era um Saiyajin trágico, isolado pela família por devorar Ki alheio. Foi aprisionado pelo próprio pai... e libertado por uma goblin. Eles se apaixonaram, tiveram filhos. E depois? A guerra os levou. Ele perdeu tudo, enlouqueceu, destruiu meio mundo. No fim, buscou redenção. Virou um Deus. E foi selado... pelo próprio melhor amigo..."

Mas é Lúcifer quem parece emergir com mais peso emocional. “Ele era o meu mais forte”, diz, em tom de despedida. Lúcifer era o anti-herói absoluto: complexo, poderoso, condenado à eternidade. “Mas foi deletado. Perdi ele.”

"Um serafim, caiu do paraíso por conhecer demais. Na Terra, encontrou Eliza, uma succubus. Ela o traiu em todos os sentidos. Inclusive, literalmente, diante de seus olhos, com um Titã. Lúcifer foi despedaçado. Mas antes disso, ele acreditava no amor. A história dele ainda me dói. Porque havia esperança..."

A perda ainda ecoa. Como perder um filho. Ou um pedaço de si.

Entre todos, Lúcifer é o que mais sangra em sua memória. “Com ele fiz mais de vinte e cinco páginas de luta. Me doei como player e como apoio. Mas o grupo sumiu, e ele foi apagado junto.”

As palavras pesam. Não como queixa, mas como cicatriz. Afinal, personagens assim não morrem. Apenas dormem, guardados nas páginas não escritas. Nas páginas da história do passado que serão contadas... e lidas.

Entre as Ruínas e as Virtudes

Todo RPGista carrega dentro de si um jogo interno constante — uma luta entre falhas e forças, entre o que se deseja entregar e o que, de fato, chega ao outro lado da tela. Para Mizush, essa consciência é clara. Há uma honestidade silenciosa quando ele fala de si mesmo como player.

“Minha maior dificuldade é me encaixar. Não sei se sou bom o suficiente, e acho que meu jeito às vezes atrapalha.”

É um sentimento que muitos jogadores, mesmo os mais experientes, conhecem bem: a dúvida constante de estar à altura da mesa, do grupo, da cena. Mizush carrega esse peso com humildade — e um toque de tristeza também. Não por se ver inferior, mas por, talvez, não sentir que é visto em sua plenitude.

E, no entanto, ao falar de sua força, sua voz muda. Ganha brilho.
“Meu coração. Eu coloco tudo de mim ali.”

Essa entrega total — que por vezes pode ser exaustiva, quase como uma exposição crua — é o que faz dele um player inesquecível para quem joga ao seu lado. Mizush não se contenta em simplesmente participar de uma cena. Ele mergulha nela. Transforma o enredo com sua intensidade.

“Sei fazer papel de apoio. Sei fazer alguém brilhar mesmo quando meu personagem tá no fundo do poço.”

Poucos jogadores compreendem tão bem o poder do suporte e apoio. Mizush entende que o RPG é coletivo — e que apoiar é, muitas vezes, tão ou mais grandioso do que protagonizar. Seu jeito de jogar, sensível e sacrificial, torna-se um pilar silencioso nas histórias em que está presente.

Ele não joga para ser o mais forte. Joga para sentir. Para ser vivido.

E talvez seja isso que o torne tão especial.

O Jeito de Viver o RPG

É entre a noite e o devaneio que Mizush escreve seus personagens. Seu processo criativo nasce do silêncio — não o silêncio vazio, mas o silêncio fértil. Aquele que precede a emoção.

“Quando começo no RPG, sempre busco saber mais sobre as raças primeiro... depois pego uma aparência e vou tentando encaixar uma raça que combine com o estilo do personagem.”

Não é sobre pressa. É sobre encaixe. Mizush constrói com calma, com peso e propósito. Só depois vêm as classes, os poderes, e então — como um sopro que ganha corpo — a história, a parte que essa oraculo mais adora.

Uma história que nunca vem só.

Na essência de seus personagens há sempre duas versões: uma onde a felicidade existe, onde os pais o criaram com amor... e outra, muito mais escura — onde há abandono, abuso, destruição. Mizush não teme a dor. Ele a transforma em enredo. Em sentimento. Em verdade.

Quando perguntado sobre o ritmo que prefere, sua resposta reflete o mesmo equilíbrio:

Ambas, pois depende das cenas.”

Longas narrativas ou interações rápidas, ele se adapta. O foco está menos na forma, mais na profundidade. E isso se reflete também na forma como lida com os narradores:

“Entro muitas vezes em contato com eles e busco sempre sugestões de lore... Meus personagens sempre reagem conforme as narrativas, mas também buscam tentar salvar quem pode ser salvo.”

Há uma reciprocidade rara aí. Mizush não joga contra. Ele joga com. Dialoga com a história, caminha ao lado do enredo — e ainda assim tem força o bastante para arrastá-lo para caminhos que não estavam escritos nem por mim.

Como jogador, diz ser tímido, mas tenta se enturmar. E quando se apega, se apega de verdade. Com os narradores, mantém amizade. Com os personagens dos outros, constrói rivalidades, alianças, romances.

E com seus próprios personagens?
Ele os oferece ao jogo como quem entrega parte de si.

Mesmo que, no fim, tudo desabe...

O Peso e Beleza da Jornada

Nem todo silêncio é descanso. Alguns silenciam porque já disseram demais, viveram demais, sentiram demais.

E quando Mizush fala da comunidade RPGista, o tom muda, ganha camadas. É como se, por um instante, a conversa flutuasse entre memória e cansaço.

“Diferente do que estive acostumado... muitas coisas diferentes das quais estive mais habituado no mundo ao todo do RPG textual.”

Há admiração nas palavras, mas também um lamento contido. Ele vê as inovações, respeita o novo — mas sente falta de algo que se perdeu no caminho. Talvez da essência. Talvez da simplicidade. Talvez do respeito.

“Plágio eu acho uma decepção, uma preguiça do indivíduo que conduziu ao plágio...”

Ele não suaviza. Para Mizush, o plágio é mais que uma infração: é uma traição criativa. Ainda que compreenda que coincidências possam existir, há casos em que a cópia é tão “descarada e vergonhosa” que fere a alma do jogo.

Prossegue e fala de sorteios, torneios, eventos — participou de vários. Viveu cenas e competições. E mesmo ao lembrar do que o torna memorável, aponta o que há de mais raro:

“Eventos que tornem a história do RPG mais emotiva... que tornem a própria lore do personagem.”

Não é sobre espetáculo. É sobre marca. Emoção. Memória.
Mas Mizush também viu o outro lado da comunidade. Os conflitos.

Presenciou bullying, humilhação, panelinhas — viu um RPG ruir por causa disso. Interveio. Perdeu a compostura. Mas, acima de tudo, não ficou calado:

“Não gosto de injustiças, muito menos humilhação e bullying.”

A firmeza aqui não é raiva. É integridade.

Se há algo que o faz permanecer no RPG, apesar de tudo, é a chama acesa da criação. Mesmo sem tempo para criar seus próprios sistemas, ele deseja. Mesmo com o peso do trabalho, ele sonha.

“Criei (sistemas) por gostar muito de fazer.”

E quando convidado a deixar uma orientação para quem está começando, não oferece atalhos. Ele oferece cuidado. Atenção. Passo a passo.

“Ensinar como funcionaria o RPG textual... explicar os turnos... fazer as cenas, com calma...”

Por fim, pedimos a ele uma frase. Apenas uma, para tentar resumir 16 anos de jornadas, personagens e cicatrizes.

E o que ele entrega é pura poesia:

“Em meio às aventuras e escolhas, descobri que viver mil vidas é tão simples quanto escrever a próxima vida.”

Simples. Profundo. Irretocável.

Mizush encerra falando sobre a RPG Academy: elogia a organização, o rigor, a proposta. E então vem a pergunta polêmica: o que acha de RPGs pagos?

Ele não hesita:

“Um vício gigante.”

Fala com a experiência de quem já gastou — e se arrependeu. De quem sabe que o RPG deveria ser conquista, não transação. De quem aprendeu, talvez da forma mais difícil, que a verdadeira riqueza do RPG está em outro lugar.

Está nas histórias que vivemos e escrevemos.



Nos vínculos que construímos.



Nos pedaços de nós que deixamos em cada personagem.

E talvez, principalmente, no que ainda temos a escrever.

✦ De onde os nômades não voltam

Há jogadores que passam.
Há personagens que brilham e somem.
E há aqueles que deixam pegadas fundas no chão da história.

Mizush Norogami não é apenas um nick no meio da multidão RPGista — ele é um marco silencioso. Uma presença firme, mesmo quando discreta. É o tipo de jogador que, em meio ao caos das mensagens e das regras, lembra o mais importante: que RPG textual é, antes de tudo, humano.

É alma vestida de palavras.
É coragem de criar mesmo quando o mundo cansa.
É recomeçar mesmo quando tudo desaba.

E ao fim desta jornada que tivemos o privilégio de registrar, só nos resta agradecer.

A Mizush — por confiar.
À comunidade — por escutar.
E às próximas vidas e histórias — que já se escrevem, enquanto você termina de ler estas linhas.

Até onde os nômades nos levarem.
Até onde as palavras puderem tocar.

Oráculo dos Destinos


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